quarta-feira, 20 de maio de 2015

Intermitências

A casa estava cheia novamente. Gente querida fazia barulho por todos os lados, sempre alegre e sorridente. Ela observava a tudo de longe. Feliz, satisfeita. Uma xícara de café quente pendia em sua mão, enquanto o líquido negro aquecia tudo por dentro. Forte, quente e doce, como a vida deveria ser. Forte, quente e doce, como ele dizia que ela era. Lembrou-se, então, da última vez em que a casa esteve farta assim antes. Não a dela, a dele. Lembrou-se, também, da frase que ele disse, surgida da maneira mais insuspeita, e que ficou martelando por muito tempo em sua cabeça. Ela levou um tempo para acreditar, e mais ainda para esquecer. Na verdade, esquecer não foi possível, porque, como agora, bastava ela estar um pouquinho distraída para que o que ele lhe disse lhe voltasse — forte, quente e doce como o café que ela sorvia aos poucos e que já começava a desaquecer.

Foi num domingo qualquer em que todos se reuniam ao redor duma mesa. Ele havia tido um dia ruim e achou que o melhor a se fazer era encher a cara. Ninguém opôs resistência: naquelas circunstâncias, ele poderia fazer o que quisesse que todos entenderiam. E assim ele fez. Ela só chegou bem depois, tão inesperada quanto o que ele lhe disse. Um alívio o tomou de inopino quando a viu. Ela, agora, era o álcool dele. Sentou-se ao lado dela e lhe contou o que havia acontecido. Feito o desabafo, a conversa mudou para assuntos mais amenos. Outras pessoas se ajuntaram a eles e a noite fluiu como sempre, tranquila. De repente, sem o menor aviso, ele lhe disse o que ela sempre quis ouvir. Não tinha mais forças pra guardar aquele segredo. Ela abaixou a cabeça, incrédula e um pouco envergonhada, enquanto ele terminava sua frase, aquela frase. Cientes do erro que ele acabara de cometer, todos fingiram não ouvi-lo e retomaram suas conversas, como se nada tivesse acontecido, após aqueles segundos confusos e silenciosos que seguiram ao que ele disse. De súbito também consciente do que acabara de fazer, ele afastou seus olhos do dela quando ela ergue a cabeça para encará-lo. Não conseguia olhá-la nos olhos agora que ela finalmente sabia de tudo. Era demais pra ele. E era demais pra ela. Ela estava surpresa e confusa como nunca. Queria saber se é verdade aquela história de que o que se diz bêbado é o que se quer de verdade. Queria dizer a ele que era recíproco, que era recíproco fazia tempo. Mas fez o que era certo a se fazer: olhou pra ele, sorriu e, assim como todos os outros, fingiu que nada havia acontecido. Foi embora pouco depois, sentindo o calor do olhar dele em sua pele enquanto saía.

Ela refaz esses passos toda vez que a frase lhe volta à cabeça, martelando, pulsando, fazendo doer. Relembra cada detalhe e, principalmente, das palavras exatas dele, da expressão em sua face e de como se sentiu. Ela, que sempre se perguntava de que matéria fugidia é feita a inspiração dos grandes poetas e literatos, qual tinta mágica, afinal, dá forma e cor àqueles versos, agora sabia. É com frases certas em horas erradas que se preenche uma folha. São aqueles pensamentos que não vão embora nunca que dão corpo ao texto. A palavra certa é a tinta da pena. Dita a frase, escrito o texto, tudo se desfaz. E recomeça. De novo e de novo.