sábado, 20 de setembro de 2008

O Rio

"Ouve o barulho do rio, meu filho.
Deixe esse som te embalar.
As folhas que caem no rio, meu filho,
Terminam nas águas do mar.
Quando amanhã por acaso faltar
Uma alegria no seu coração,
Lembra do som dessas águas de lá,
Faz desse rio a sua oração.
Lembra, meu filho: passou. passará.
Essa certeza a ciência nos dá:
Que vai chover quando o sol se cansar,
Para que flores não faltem.
Para que flores não lhe faltem jamais."
(Marisa Monte)
.
Conheci essa música há algum tempo e não pude deixar de me emocionar. Cresci inundada pela presença constante do rio São Francisco. E mesmo agora, que não vivo tão próxima a ele quanto antes, é a memória dele que me inunda. Ficar apática à letra dessa música me é impossível. Por isso a escrevi aqui. Para você, meu filho. Para que você se acostume com ela, pois será com ela que eu irei lhe ninar. Essa será também sua primeira lição, filho. Aprenda-a, para que flores não lhe faltem. Quando você vier ao mundo, eu tenho fé, o São Francisco continuará lá. E não se preocupe, filho: eu lhe levarei lá. Promessa.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

O que é simpatia

Simpatia - é o sentimento
Que nasce num só momento,
Sincero, no coração;
São dois olhares acesos
Bem juntos, unidos, presos
Numa mágica atração.
.
Simpatia - são dois galhos
Banhados de bons orvalhos
Nas mangueiras do jardim;
Bem longe às vezes nascidos,
Mas que se juntam crescidos
E que se abraçam por fim.
.
São duas almas bem gêmeas
Que riem no mesmo riso,
Que choram nos mesmos ais;
São vozes de dois amantes,
Duas liras semelhantes,
Ou dois poemas iguais.
.
Simpatia - meu anjinho,
É o canto do passarinho,
É o doce aroma da flor;
São nuvens dum céu d'Agôsto,
É o que m'inspira teu rosto...
- Simpatia - é - quase amor!

Indaiaçu - 1857.


Poema de Casimiro de Abreu.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Por não estarem distraídos

"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter essa sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa pra que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou o fio. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."

Clarice Lispector – Para não esquecer

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Para uma menina como uma flor.

Porque você é uma menina como uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.
E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.
E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.
E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.
E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.
E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobre tudo porque você é uma menina com uma flor.

Poema de Vinicius de Moraes

Para começar

Hoje é um dia inspirado. Um dia que me deu vontade de falar, de escrever, de me mostrar.
Eu fico pensando em todas as coisas que acontecem no nosso dia a dia, em como tudo pode mudar de uma hora pra outra. E em como tudo mudou.
Viver é bom.
As mudanças são boas.
Hoje eu canto aquelas velhas canções por outros motivos, mas as lembranças ainda são as mesmas, aquelas velhas sensações são as mesmas. E mesmo sabendo que tudo passou, é bom ouvir, sentir novamente e saber que, bom ou ruim, aquilo passou.
Hoje eu vejo velhos conhecidos com olhos surpreendentemente novos. É incrível ver essas velhas pessoas como extremamente novas, desconhecidas pra mim. É o velho "eu conheci uma guria que eu já conhecia" que canta Humberto Gessinger [ou pelo menos cantava]. Mais incrível ainda é perceber os sentimentos que essas pessoas podem despertar em mim. Sentimentos que nunca imaginei sentir por algumas delas e que espero conservar por longo tempo agora, ao contrário de outrora.
E isso é bom! Sentir é bom!